terça-feira, 19 de setembro de 2017

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

STEVE HACKETT - «Way Down South»

Poet'anarquista

CAMINHO BAIXO SUL

Sonhando com a rosa
Eu deixei para trás
Olhando fixamente para estas quatro paredes
É hora de pegar uma boleia

Você vai me encontrar caminho baixo sul
Você vai me encontrar caminho baixo sul
Você vai me encontrar

Na cidade como uma cidade fantasma
Todos eles podem ir para o inferno
Um pensamento que está comigo
Para ver que sulista sou

Você vai me encontrar caminho baixo sul
Você vai me encontrar caminho baixo sul
Você vai me encontrar

Azul na parte da manhã
Minha cama vazia
É por isso que eu estou indo
Onde os anjos temem pisar

Você vai me encontrar caminho baixo sul
Você vai me encontrar caminho baixo sul
Você vai encontrar-me

Steve Hackett
Guitarrista, Cantor e Compositor Britânico

OUTROS CONTOS

«A Ovelha Negra», por Ítalo Calvino.

«A Ovelha Negra»
Conto de Ítalo Calvino

1099- «A OVELHA NEGRA»

Havia um país onde todos eram ladrões.

À noite, cada habitante saía, com a gazua e a lanterna, e ia arrombar a casa de um vizinho. Voltava de madrugada, carregado e encontrava a sua casa arrombada.

E assim todos viviam em paz e sem prejuízo, pois um roubava o outro, e este, um terceiro, e assim por diante, até que se chegava ao último que roubava o primeiro. O comércio naquele país só era praticado como trapaça, tanto por quem vendia como por quem comprava. O governo era uma associação de delinquentes vivendo à custa dos súbditos, e os súbditos por sua vez só se preocupavam em defraudar o governo. Assim a vida prosseguia sem tropeções, e não havia nem ricos nem pobres.

Ora, não se sabe como, ocorre que no país apareceu um homem honesto. À noite, em vez de sair com o saco e a lanterna, ficava em casa fumando e lendo romances.

Vinham os ladrões, viam a luz acesa e não subiam.

Essa situação durou algum tempo: depois foi preciso fazê-lo compreender que, se quisesse viver sem fazer nada, não era essa uma boa razão para não deixar os outros fazerem. Cada noite que ele passava em casa era uma família que não comia no dia seguinte.

Diante desses argumentos, o homem honesto não tinha o que objectar. Também começou a sair de noite para voltar de madrugada, mas não ia roubar. Era honesto, não havia nada a fazer. Andava até a ponte e ficava vendo a água passar em baixo. Voltava para casa, e a encontrava roubada.

Em menos de uma semana o homem honesto ficou sem um tostão, sem o que comer, com a casa vazia. Mas até aí tudo bem, porque era culpa sua; o problema era que seu comportamento criava uma grande confusão. Ele deixava que lhe roubassem tudo e, ao mesmo tempo, não roubava ninguém; assim sempre havia alguém que, voltando para casa de madrugada, achava a casa intacta: a casa que o homem honesto devia ter roubado.

O facto é que, pouco depois, os que não eram roubados acabaram ficando mais ricos que os outros e passaram a não querer mais roubar. E, além disso, os que vinham para roubar a casa do homem honesto sempre a encontravam vazia; assim iam ficando pobres.

Enquanto isso, os que se tinham tornado ricos pegaram o costume, eles também, de ir de noite até a ponte, para ver a água que passava em baixo. Isso aumentou a confusão, pois muitos outros ficaram ricos e muitos outros ficaram pobres.

Ora, os ricos perceberam que, indo de noite até a ponte, mais tarde ficariam pobres. E pensaram: “paguemos aos pobres para irem roubar para nós”. Fizeram-se os contratos, estabeleceram-se os salários, as percentagens: naturalmente, continuavam a ser ladrões e procuravam enganar-se uns aos outros. Mas, como acontece, os ricos tornavam-se cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.

Havia ricos tão ricos que não precisavam mais roubar e que mandavam roubar para continuarem a ser ricos. Mas, se paravam de roubar, ficavam pobres porque os pobres os roubavam. Então pagaram aos mais pobres dos pobres para defenderem as suas coisas contra os outros pobres, e assim instituíram a polícia e constituíram as prisões.

Dessa forma, já poucos anos depois do episódio do homem honesto, não se falava mais de roubar ou de ser roubado, mas só de ricos ou de pobres; e, no entanto, todos continuavam a ser pobres.

Honesto só tinha havido aquele sujeito, e morrera logo, de fome.

Ítalo Calvino

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

SÁTIRA...

As Costas do Costa
Sátira...

«AS COSTAS DO COSTA»

Que tristeza este fado!...
Todos se põem de costas,
Até o merda do Bostas
Resolveu virar costado.
Seria insigne Magistrado…
O mais alto da Nação,
Fui caçado na Operação
Pelo maldito Marquês…
Uma conspiração desfez
A derradeira ambição!

POETA

OUTROS CONTOS

«O Barão», por Branquinho da Fonseca.

«O Barão»
Romance de Branquinho da Fonseca

1098- «O BARÃO»

[Introdução]

“Não gosto de viajar. Mas sou inspector das escolas de instrução primária e tenho obrigação de correr constantemente todo o País. Ando no  caminho da bela aventura, da sensação nova e feliz, como um cavaleiro andante. Na verdade lembro-me de alguns momentos agradáveis, de que tenho saudades, e espero encontrar outros que me deixem novas saudades. É uma instabilidade de eterna juventude, com perspectivas e horizontes sempre novos. Mas não gosto de viajar. Talvez só por ser uma obrigação e as obrigações não darem prazer.

Entusiasmo-me com a beleza das paisagens, que valem como pessoas, e tive já uma grande curiosidade pelos tipos rácicos, pelos costumes, e pela diferença de mentalidade do povo de região para região. Num país tão pequeno, é estranhável tal diversidade. Porém não sou etnógrafo, nem folclorista, nem estudioso de nenhum desses aspectos e logo me desinteresso. 

Seja pelo que for, não gosto de viajar. Já pensei em pedir a demissão. Mas é difícil arranjar outro emprego equivalente a este nos vencimentos. Ganho dois mil escudos e tenho passe nos comboios, além das ajudas de custo. Como vivo sozinho, é suficiente para as minhas necessidades. Fazer algumas economias e, durante o mês de licença que o Ministério me dá todos os anos, poderia ir ao estrangeiro. Mas não vou. Não posso. Durante esse mês quero estar quieto, parado, preciso de estar o mais parado possível. Acordar todas essas trinta manhãs no meu quarto! Ver durante trinta dias seguidos a mesma rua! Ir ao mesmo café, encontrar as mesmas pessoas!... Se soubessem como é bom! Como dá uma calma interior e como as ideias adquirem continuidade e nitidez! Para pensar bem é preciso estar quieto.

Talvez depois também cansasse, mas a natureza exige certa monotonia. As árvores não podem mexer-se. E os animais só por necessidade física, de alimento ou de clima, devem sair da sua região. Acerca disto tenho ideias claras e uma experiência definitiva. É até, talvez, a única coisa sobre que tenho ideias firmes e uma experiência suficiente. Mas não vou filosofar; vou contar a minha viagem à serra do Barroso.”

Branquinho da Fonseca

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

PROCOL HARUM - «For Liquorice John»

Poet'anarquista

ALCAÇUZ PARA JOHN

Ele caiu de graça e bateu no chão
Eles tentaram em vão trazê-lo de volta
Ninguém o viu fazer a queda
Eles não conseguiam entender nada

Sua queda em desgraça foi rápida e em linha reta
Os médicos não hesitaram
O que ele tinha eles não tinham certeza
Ele não tem temperatura

Sua queda em desgraça foi rápida e segura
Os médicos disseram que sabiam da cura
Eles sentiram tocaram levemente e apertaram-lhe o pulso
Ele não conseguia entender nada

Ele caiu de graça e bateu no chão
Ele caiu no mar e se afogou
Eles o viram lutando do porto
Eles o viram acenar quando ele afundou

Procol Harum
Banda Britânica

domingo, 17 de setembro de 2017

OUTROS CONTOS

«Adeus à Hora da Largada», conto poético por Agostinho Neto.

«Adeus à Hora da Largada»
Escritor Agostinho Neto

1097- «ADEUS À HORA DA LARGADA»

Minha Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis

Mas a vida
matou em mim essa mística esperança

Eu já não espero
sou aquele por quem se espera

Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida

Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico

somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz elétrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens
nós mesmos

Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura

Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
Vão em busca de vida.

Agostinho Neto

SÁTIRA...

Mistura Explosiva
Sátira...

«MISTURA EXPLOSIVA»

- Mister, pareciam balas!...
Tenho a luva furada (?)
- Varela, não vejo nada
Desde que uso palas…
A mim já não entalas
Novamente na baliza,
O banco agora precisa
De suplente à altura…
- É explosiva a mistura
Quando se improvisa!

ATEOP

sábado, 16 de setembro de 2017

OUTROS CONTOS

«Um Homem Nunca Chora», conto poético por José Craveirinha.

«Um Homem Nunca Chora»
Pintura de Oswaldo Guayasamin

1096- «UM HOMEM NUNCA CHORA»

Acreditava naquela história
do homem que nunca chora.

Eu julgava-me um homem.

Na adolescência
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.

Agora tremo.
E agora choro.

Como um homem treme.
Como chora um homem!

José Craveirinha

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

THE SMALL FACES - «Rene»

Poet'anarquista

The Small Faces
Banda Britânica

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

OUTROS CONTOS

«Glosa», conto poético por Manel d' Sousa.

«Glosa»
Desenho/ JPGalhardas

MOTE

Meu amor, vê se te ajeitas
a usar meias modernas,
dessas meias que são feitas
da pele das próprias pernas.

António Aleixo

1095- «GLOSA»

Era mulher vistosa
Aquela que aqui passou,
O ar se perfumou
Com o cheiro da ‘rosa’.
Dedico-lhe esta glosa
Em livro de receitas
As dúvidas desfeitas
Sobre minhas intenções…
Em certas ocasiões,
Meu amor, vê se te ajeitas!

Dá voltas ao sentido
Uma cor transparente…
E eu, d’olhar inocente,
Coração meio dividido.
Pensamento entretido
Nestas visões externas,
Imagino partes internas
Como vieram ao mundo…
O meu apelo rotundo
A usar meias modernas.

Elas passeiam a trejeito
No seu modo de andar…
Prendo nelas meu olhar,
Fico às vezes sem jeito.
Não lhes acho defeito
Ou sinal doutras maleitas,
Tudo no sítio às direitas
Na verdade esculturais…
Diz-me que são naturais,
Dessas meias que são feitas.

Desfilam à minha beira
Travestidas ao natural…
Ou com adorno especial,
Nunca de outra maneira.
Há ainda quem queira
Que elas sejam eternas,
Mas não me consternas
Com esse vã pensamento…
Novas meias invento
Da pele das próprias pernas!

Manel d’ Sousa

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

THE JIM CARROLL BAND - «Day And Night»

Poet'anarquista

DIA E NOITE

Dia e noite . . . as sombras se movem muito devagar
Do escuro à luz, ela prometeu que poderia me conhecer
Lembre-se quando . . . Eu a assisti na escada
Ela estava bebendo vinho. . . e ela me contou o que
estrelas diziam. . .

Alguns destinos, eles não devem ser entregues. . .
Mas em seus olhos eu vi mil razões

Dia e noite

Sinto a pele dela. . . É fina e branca como leite pressionado
Fechei os olhos e ela desapareceu como seda queimada
E o que resta é como um trovão caído
E meus lábios estavam acorrentados; eles estavam cheios de maravilha vazia

Mas as estrelas contam mentiras, cega o único aviso
E quando a escuridão morre, não resta mais nada da manhã…

Apenas dia e noite

Dia e noite… as sombras começam a se espalhar
Quando tocado pela luz… cada promessa feita é quebrada
E mesmo quando a questão é encontrar a resposta
Mas mesmo assim, eles são algo como um dançarino
Mas mesmo assim, eles são algo como um dançarino
Como dia e noite. . . escuro para luz
Eu me mudo de dia para noite

The Jim Carroll Band
Banda Norte-Americana

OUTROS CONTOS

«Em Pé», conto poético por Mario Benedetti.

«Em Pé»
Poema de Mario Benedetti

1094- «EM PÉ»

Continuo em pé
por pulsar
por costume
por não abrir a janela decisiva
e olhar de uma vez a insolente
morte
essa mansa
dona da espera

continuo em pé
por preguiça nas despedidas
no fechamento e demolição
da memória

não é um mérito
outros desafiam
a claridade
o caos
ou a tortura

continuar em pé
quer dizer coragem

ou não ter
onde cair
morto

Mario Benedetti

SÁTIRA...

«O Grande Plagiário»
plagio1.gif
Sátira...

«O GRANDE PLAGIÁRIO»

Apresentou-se o plagiário
Na vila do Alandroal,
Milhares d’euros no total
Embolsou este falsário.
P’las mãos dum mercenário
O dito cá se apresentou,
45 mil euros quanto levou
Ó que rica contribuição…
Vive de plágio o ladrão
Com as notas que gamou!

POETA

SÁTIRA...

A Armadilha
Sátira...

«A ARMADILHA»

Contei ‘4’ armadilhas
No relvado do Dragão…
Uma foi em contra-mão,
Três na baliza do Casilhas.
Ó Besiktas tu humilhas!…
Resultado escandaliza,
O Dragão desmoraliza
Com armadilhas turcas…
Foram quatro bazucas,
Uma na própria baliza!!

ATEOP

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

OUTROS CONTOS

«O Poema», conto poético por Herberto Helder.

«O Poema»
Retrato do Poeta/ Maria Henriques

1903- «O POEMA»

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne. Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
— a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
e a miséria dos minutos,
e a força sustida das coisas, 
e a redonda e livre harmonia do mundo.
— Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Helder

PENSAMENTO...

«Pensamento»
Escritor Italiano Italo Svevo

Por aqui:- OUTROS CONTOS

PENSAMENTO…

 “Quando todos compreenderem claramente como eu, escreverão. A vida será impregnada de literatura. Metade da humanidade consagrar-se-á à leitura e ao estudo 
do que a outra metade terá escrito.

E o recolhimento ocupará o seu melhor tempo que será por isso 
arrancado à verdadeira e horrível vida.

E se uma parte da humanidade se rebelar e recusar a ler as meditações dos outros, 
tanto melhor. Cada um se lerá a si mesmo.”

Italo Svevo

SÁTIRA...

O Caso do Medina
Sátira...

«O CASO DO MEDINA»

- Já viste, Tonho Bosta…
Esqueci de declarar
Na casa que fui comprar,
Uma pequeníssima porta (?)
‘Mão morta, mão morta…’
- Medina, vai à luta,
Mas antes escuta:
Não tens opositores,
Não precisas de favores,
Terás maioria absoluta!

POETA

SÁTIRA...

A Avestruz
Sátira...

«A AVESTRUZ»

Foi no relvado da Luz
Que a Águia eclipsou,
A cabeça enterrou
Tal qual uma Avestruz.
Batem à porta: ‘truz, truz…’
Era o CSKA de Moscou,
Os três pontos levou
Coisa que nunca supus…
Com o peso da cruz
A Vitória se esfumou!

ATEOP

terça-feira, 12 de setembro de 2017

SÁTIRA...

Ouvidos de Mercador
Sátira...

«OUVIDOS DE MERCADOR»

- Esse teu cinismo
Pra que em Portugal
Tudo corra mal,
É queda no abismo…
Falso moralismo!
E tu com hipocrisia,
Hoje desce, antes subia…
- Ouves algo, Assunção?
- Só distante um furacão…
- Que rica democracia!

POETA

SÁTIRA...

A Gaiola
Sátira...

«A GAIOLA»

Primeira vez que vejo
Mascotes engaioladas…
Às três aprisionadas,
Tudo bom lhes desejo!
Final feliz não prevejo
Na Liga dos Campeões,
Enjauladas em prisões
Só podem jogar à defesa…
Talvez haja surpresa
E comam os tubarões!!

ATEOP

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

THE VERVE - «Bitter Sweet Symphony»

Poet'anarquista

SINFONIA DA AMARGURA DA VIDA

Pois é uma sinfonia agridoce (amarga e doce) , essa vida
Tente viver dentro de seus recursos
Você vira escravo do dinheiro e depois morre
Eu vou te levar pela única estrada onde já estive
Você sabe, aquela que te leva aos lugares
Onde todas as veias se encontram

Sem mudanças, eu posso mudar
Eu posso mudar, eu posso mudar
Mas estou aqui em minha forma
Estou aqui no meu molde
Mas sou um milhão de pessoas diferentes
De um dia para o outro
Não posso mudar minha forma
Não, não, não, não, não

Bem, eu nunca rezei
Mas hoje estou de joelhos, sim
Preciso ouvir alguns sons que identifiquem a dor em mim, sim
Vou deixar a melodia brilhar, limpar minha mente, me sinto livre agora
Mas as ondas do ar estão limpas e ninguém canta para mim agora

Sem mudanças, eu posso mudar
Eu posso mudar, eu posso mudar
Mas estou aqui em minha forma
Estou aqui no meu molde
E eu sou um milhão de pessoas diferentes
De um dia para o outro
Não posso mudar minha forma
Não, não, não, não, não
Não posso mudar
Não posso mudar

Pois é uma sinfonia agridoce (amarga e doce) , essa vida
Tente viver dentro de seus recursos
Você tenta achar dinheiro e depois morre
Eu vou te levar pela única estrada onde já estive
Você sabe, aquela que te leva aos lugares
Onde todas as coisas se encontram

Você sabe que eu posso mudar, eu posso mudar
Eu posso mudar, eu posso mudar
Mas estou aqui em minha forma
Estou aqui no meu molde
E eu sou um milhão de pessoas diferentes
De um dia para o outro
Não posso mudar minha forma
Não, não, não, não, não

Não posso mudar minha forma
Não, não, não, não, não
Não posso mudar
Não posso mudar meu corpo
Não, não, não, não, não

Eu vou te levar pela única estrada onde já estive
Eu vou te levar pela única estrada onde já estive
Onde já estive
Já estive
Já estive
Já estive
Já estive
Você algum dia já esteve lá?
Você algum dia já esteve lá?

The Verve
Banda Britânica

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

OUTROS CONTOS

«In Memoriam», por AC.

«In Memoriam»
Impacto nas Torres Gémeas

1902- «IN MEMORIAM»

[O dia em que o inferno aterrou na City]

Naquele dia 11 de Setembro soltaram-se as feras e invadiram a baixa da cidade. Muitos transeuntes, habituados à confusão de gentes e ocorrência de acontecimentos insólitos, pensaram tratar-se da rodagem de mais um filme da série “Assalto ao Arranha-Céus”, com efeitos especiais  indelevelmente reais.

Foi quando o roncar ensurdecedor  de um avião, muito perto do chão da “down Town”, atraiu a minha atenção para aquela parte do céu (inferno) onde se deslocava.  Antevi  que aquele avião de fuselagem negra, pintado pelo efeito de contra luz do início da manhã, apesar de continuar a julgar ser uma simulação para efeitos especiais, ia chocar com uma das Torres gémeas do World Trade Center, símbolo do poder e do cosmopolitismo da City.

O avião entrou pela Torre norte adentro, libertando para trás o ribombar de um descomunal trovão e expelindo um cogumelo imenso de chamas. Tudo à minha volta tremeu… gritos de pânico dão agora um aspecto mais condizente com a realidade, que eu confirmo quando vejo uma miríade de objectos, uns maiores, outros mais pequenos, que se libertam da nuvem densa de pó e caiem por todo o lado. Procuro irrisoriamente abrigo debaixo de um toldo de um café de esquina, onde penso estar sob protecção. Um turbilhão de papéis esvoaçam entre manchas multiformes de pó que vai uniformizando o colorido desta parte da cidade, sempre muito matizado. Do meu abrigo tenho ângulo para ver as duas Torres, como que encostadas uma à outra, da mais afastada saindo labaredas da parede metálica esventrada do edifício, lá bem alto. De súbito outra vez o roncar, agora medonho, de um motor… e a sombra enorme de outro avião parece que também nos transporta, a nós visitantes incógnitos da baixa da cidade…

A cena repete-se  na Torre sul, de onde é expelido outro cogumelo monstruoso de chamas e denso fumo negro.

Colado ao chão pelo irreal do que está a acontecer, sou arrastado por uma multidão que foge desordenadamente do ponto da catástrofe. Tento ultrapassar o pânico que tomou conta de tudo e de todos. Uma miríade de pequenos pedaços de metal, ainda incandescentes, atinge o solo como pequenas “estrelas cadentes”. Olho incrédulo para as duas Torres gémeas, brutalmente esventradas pelo impacto das aeronaves. Vejo que as chamas tomaram conta de vários andares na zona superior das Torres.

Mas… há gente pendurada para o exterior dos edifícios… ó meu Deus… adivinha-se que alguém acena com um objecto branco, talvez um lenço, sinalizando a sua presença no desespero de um socorro, uma ajuda, para sair do inferno que aterrou bem cedo de manhã no World Trade Center.

Dou comigo a gritar: -não posso crer…, não posso crer no que os meus olhos vêem… é um filme de terror inimaginável!... …dois vultos humanos caiem no vazio de mãos dadas… quero desviar o meu olhar do seu drama, em respeito pela coragem dos seus últimos momentos de união… …mas não consigo… …acompanho-os até que deixo de vê-los quase a tocar o fim. Oiço nitidamente o som arrepiante do embate no solo.

Alguém grita: «a Torre sul vem abaixo». Instantaneamente todos param para ver a Torre sul desmoronar-se… cair a pique e afundar-se numa massa fantasmagórica de cimento derretido. Ouve-se um rugido diabólico e uma gigantesca onda de pó, escombros e detritos atira-se em todas as direcções. O movimento volta a iniciar-se descoordenadamente…, alguém fica sentado no chão coberto de pó, sem forças, ou simplesmente encostado a um candeeiro de rua, preso à angústia do que parece ser o fim do mundo. Gritos e lamentos ecoam por todo o lado, imperceptíveis mas traduzidos todos do mesmo modo, misturados com o soar de sirenes.

Afasto-me em direcção ao rio Hudson, envolto em pó e por uma multidão que fala sem nexo…, grita…, chora…, gesticula…, com a marca do terror desenhada nos rostos.

A meio da ponte aonde chego, apinhada de gente, todos olham em silêncio para a enorme cortina de pó que cobre a baixa da cidade, vendo o espectáculo dantesco da queda da  Torre norte: a enorme antena de telecomunicações inicia a sua queda, fazendo lembrar o mastro de um navio que se afunda…

…as feras devoram o coração da City!

AC

SÁTIRA...

Vídeo-Conversas
Sátira...

«VÍDEO-CONVERSAS»

- Que tem isto que ver
Com minha mulher?
- Só mostro se quiser,
Escuta o que vou dizer…
- Andas mas é a meter
Colher sem me consultar…
- Não estejas a duvidar
Desta vídeo-conversa!
- Como estou com pressa,
A mulher pode esperar (?)

ATEOP

SÁTIRA...

O Desastre
Sátira...

«O DESASTRE»

- Já decretei o estado
De calamidade na Flórida…
A situação é mórbida,
Ficou tudo arrasado!
- Andas muito azarado,
Segundo desastre vivido.
- Devo estar esquecido…
Podes ser mais sucinto?
- Se pedes, eu não minto:
Não devias ter nascido!

POETA

OUTROS CONTOS

«Coisas», por D. H. Lawrence.
«Coisas»
Paris Antiga
1091- «COISAS»

Eram dois verdadeiros idealistas da Nova Inglaterra. Mas isto foi há algum tempo: antes da guerra. Uns anos antes da guerra, encontraram-se e casaram: ele, um jovem alto, de olhos perspicazes, natural de Connecticut; ela, uma jovem de Massachusetts, pequenina, recatada, com um aspecto de puritana. Ambos tinham algum dinheiro, mas não muito. Mesmo em conjunto, não dava três mil dólares por ano. Contudo, eram livres. Livres! 

Oh! a liberdade! Ter a liberdade de viver como se quer! Ter vinte e cinco e vinte e sete anos, um par de verdadeiros idealistas, com mútuo amor da beleza, inclinação para «o pensamento hindu» - quer dizer, Mrs. Besant - e um rendimento um pouco inferior a três mil dólares por ano! Mas para que é o dinheiro? Tudo o que se quer é viver uma vida cheia e bela. Evidentemente, na Europa, na fonte da tradição. 

Poderia também ser na América; na Nova Inglaterra, por exemplo. Mas à custa duma certa dose de «beleza». A verdadeira beleza leva muito tempo a amadurecer. O barroco é apenas meio belo, meio amadurecido. Não, a verdadeira flor de prata, o verdadeiro ramo de ouro aromático da beleza teve as suas raízes na Renascença, não em qualquer outro período mais recente ou superficial. 

Por conseguinte, os dois idealistas, que casaram em New Haven, partiram imediatamente para Paris: a Paris dos velhos tempos. Tinham atelier no Boulevard Montparnasse, e tornaram-se verdadeiros parisienses, no velho, delicioso sentido da palavra, não no moderno, grosseiro. Era na aurora dos impressionistas puros, Monet e os seus discípulos, o mundo visto em termos de pura luz, luz directa e indirecta. Que belo! Que belas as noites, o rio, as manhãs nas velhas ruas, e junto às tendas das floristas e dos livreiros, as tardes no alto de Montmartre ou nas Tulherias, as noites nos boulevards. 

Pintavam ambos, mas não com furor. Nem a arte os dominava, nem eles dominavam a arte. Pintavam: nada mais. Tinham conhecimentos - conhecimentos distintos, quando possível, muito embora tivesse de se aceitar duma coisa e doutra. E eram felizes. 

Contudo, dir-se-ia que os seres humanos têm de firmar as garras em qualquer coisa. Para sermos «livres», para «vivermos uma vida cheia e bela», é necessário, ai de nós!, agarrarmo-nos a qualquer coisa. Uma «vida cheia e bela» significa a adesão firme a qualquer coisa pelo menos, assim acontece com todos os idealistas - porque, de contrário, sobrevém o tédio. Há um certo acenar de tentáculos para o ar, como acontece com as gavinhas acenantes, tateantes da vide que se estendem e enroscam, procurando qualquer coisa a que se agarrem, qualquer coisa a que trepem, em procura do necessário sol. Quando não encontra nada, a vinha apenas rasteja sobre o solo, não chegando a realizar-se plenamente. Tal é a liberdade! - o agarrar-se à estaca que convém. E os seres humanos são todos vides. Mas especialmente o idealista. Este é uma vide que necessita de se agarrar e de trepar, desprezando o homem que é uma simples batata, um simples nabo ou pedaço de madeira. 

Os nossos idealistas eram espantosamente felizes, mas estavam a todo o momento vendo se alcançavam qualquer coisa com que se conformassem. A princípio, Paris bastou. Exploraram Paris exaustivamente. Aprenderam o francês até quase se sentirem franceses, tão fluentemente o falavam. 

Todavia, sabeis, nunca chegamos a falar francês com a nossa alma. É coisa impossível. E muito embora seja emocionante, a princípio falar em francês a franceses ilustrados, contudo com o decorrer do tempo (eles parecem exceder-nos tanto em ilustração!), sentimo-nos insatisfeitos. O materialismo dos franceses, duma infinita justeza, deixa-nos frios, ao cabo, dá-nos uma sensação de esterilidade e incompatibilidade com o saber profundo da Nova Inglaterra. Foi isto o que os nossos dois idealistas sentiram. 

Afastaram-se da França - mas sempre duma maneira cortês. A França desiludira-os. - Nós a amamos, e aproveitamos muito com ela. Mas, passado certo tempo, passado bastante tempo, de fato alguns anos, Paris deixa-nos uma sensação de desapontamento. Não possui bem aquilo de que necessitamos. 

- Mas Paris não é a França. 

- Não, talvez não seja. A França é bastante diferente de Paris. E a França é adorável - bastante adorável. Mas para nós, muito embora a amemos, não nos satisfaz por completo. 

De forma que, quando veio a guerra, os idealistas mudaram para a Itália. E amaram a Itália. Acharam-na bela, e mais apaixonante que a França. Parecia muito mais perto da concepção da beleza da Nova Inglaterra: qualquer coisa de puro e cheio de simpatia, sem o materialismo e o cinismo dos franceses. Os dois idealistas pareciam respirar na Itália o seu verdadeiro ar natal.

E na Itália, muito mais do que em Paris, sentiram que podiam vibrar com os ensinamentos de Buda. Penetraram na corrente avassaladora da moderna emoção budista, leram livros, entregaram-se à meditação e lançaram-se decididamente à tarefa de eliminar das suas próprias almas a cobiça, a dor e o sofrimento moral. Não compreenderam, contudo, que a própria preocupação de Buda de se libertar da dor e do sofrimento moral é em si uma espécie de cobiça. Não, eles sonhavam com um mundo perfeito, de que fossem eliminadas toda a cobiça, quase toda a dor e uma grande parte do sofrimento moral. 

Mas a América entrou na guerra, de forma que os dois idealistas tinham de a ajudar. Trabalharam num hospital. E muito embora a sua experiência os fizesse compreender mais do que nunca que a cobiça, a dor, e o sofrimento moral deviam ser eliminados do mundo, não obstante, o budismo ou a teosofia não emergiu muito triunfante da longa crise. De qualquer forma, em qualquer parte, em qualquer parte de si próprios sentiam que a cobiça, a dor e o sofrimento moral nunca seriam eliminados, porque a maior parte das pessoas não se preocupa com eliminá-los nem se preocupará nunca. Os nossos idealistas eram demasiado ocidentais para pensarem em abandonar todo o mundo à condenação, enquanto os dois se salvavam a si próprios. Eram excessivamente abnegados para se sentarem debaixo duma árvore, numa atitude rígida, e atingirem o Nirvana apenas os dois. 

Contudo, havia mais do que isso. Era que não tinham nádegas suficientemente carnudas para se instalarem debaixo duma árvore bho e atingirem o Nirvana contemplando qualquer coisa, e menos que tudo o seu próprio umbigo. Se todo o vasto mundo fosse salvo, eles, pessoalmente, não se preocupariam em salvar-se apenas a si próprios. Não; sentir-se-iam tão solitários! Eram naturais da Nova Inglaterra, de forma que tinha de ser tudo ou nada. A cobiça, a dor e o sofrimento moral, ou seriam eliminados de todo o mundo, ou então, de que servia eliminarem-nos de si? Não servia de nada absolutamente! Transformar-se-iam apenas em vítimas. 

De forma que, muito embora ainda amassem o «pensamento hindu» e se enternecessem com ele, bem (para voltarmos à nossa metáfora) a estaca a que as verdes e ansiosas vides tinham trepado, revelava-se agora inteiramente podre. Quebrou, e as vides vieram vagarosamente caindo até ao chão. Não houve queda brusca. As vides mantiveram-se no ar, graças à sua folhagem, durante um certo tempo. Mas abateram. O esteio do «pensamento hindu» cedera, antes que os dois tivessem saltado do seu topo para um mundo novo. 

Caíram no chão com um rumor lento. Mas não fizeram ruído. Ficaram de novo «desapontados». Mas nunca o confessaram. O «pensamento hindu» tinha-os deixado cair por terra. Mas nunca o lamentaram. Nem mesmo disseram nunca uma palavra um ao outro. Estavam desapontados, vagamente, mas profundamente desiludidos, e ambos o sabiam. Mas esse saber era tácito. 

Tinham ainda tanto com que contar na sua vida! Tinham ainda a Itália, a cara Itália. Tinham ainda a liberdade, esse tesouro inestimável. E tinham ainda tanta «beleza»! Quanto à plenitude da vida é que não tinham tanta certeza. Tinham um filhinho a quem amavam como os pais devem amar os filhos, mas evitavam sabiamente prender-se apenas a ele, edificar as suas vidas sobre a dele. Não, não. Tinham de viver a sua própria vida! Possuíam ainda suficiente vigor mental para o saberem. 

Mas já não eram muito novos. Os vinte e cinco e os vinte e sete anos tinham dado lugar a trinta e cinco e trinta e sete. E, muito embora tivessem vivido uma temporada maravilhosa na Europa, muito embora amassem ainda a Itália - a cara Itália! - contudo, estavam desapontados. Tinham extraído dela uma forte dose de prazer; oh, muitíssimo prazer, na verdade! Porém, ela não lhes tinha dado tudo, tudo o que tinham esperado. A Europa era bela, mas estava morta. Viver na Europa era o mesmo que viver no passado. E os Europeus, com toda a sua atracção superficial, não eram realmente atraentes. Eram materialistas, não tinham verdadeira alma. Não compreendiam os anseios mais íntimos do espírito, porque os anseios mais íntimos tinham morrido neles, que eram agora meras sobrevivências. Esta era a verdade relativamente aos Europeus: eram sobrevivências, incapazes de caminhar para a frente. 

Era outra estaca de feijoeiro, outro suporte de vinha que abatia sob a vida verde da videira. E bastante amargo isso foi, desta vez. Porquanto, pelo velho tronco da Europa a verde videira tinha ido trepando silenciosamente durante mais de dez anos, dez anos imensamente importantes, os anos da verdadeira vida. Os dois idealistas tinham vivido na Europa, vivido da Europa, da vida europeia e das coisas europeias, como as vides de um parreiral perpétuo.

Tinham construído ali o seu lar, um lar como nunca se poderia ter construído na América. A sua palavra de ordem tinha sido «a beleza». Tinham alugado, durante os últimos quatro anos, o segundo andar dum velho palácio sobre o Arno, e ali tinham todas as suas «coisas». E o seu apartamento proporcionava-lhes uma profunda satisfação; as elevadas e silenciosas salas antigas, com janelas sobre o rio, com brilhantes soalhos duma madeira vermelho escura, e as magníficas mobílias que os idealistas tinham coleccionado. 

Sim, sem que eles próprios dessem por isso, as vidas dos idealistas haviam corrido horizontalmente, com uma rapidez vertiginosa, durante todo este período. Haviam-se tornado dois ferozes caçadores de «coisas» para o seu lar. Enquanto as suas almas trepavam para o sol da velha cultura europeia ou do velho pensamento hindu, as suas paixões corriam horizontalmente, agarrando-se às «coisas». Claro que não compravam as coisas pelas coisas, mas sim pela «beleza». Consideravam a sua casa como um lugar inteiramente guarnecido pela beleza, e de forma alguma por «coisas». Valéria tinha umas cortinas encantadoras nas janelas da extensa salota que dava sobre o rio: cortinas dum esquisito tecido antigo que parecia uma seda finamente bordada, cujos tons magníficos iam do vermelho, do alaranjado, do dourado e do negro, a um puro e suave fulgor. Era raro Valéria entrar na salota sem cair de joelhos mentalmente perante as cortinas. 

- Chartres! - dizia. - Para mim são Chartres. 

E MelvilIe nunca se voltava para a sua estante veneziana do século XVI, com as suas duas ou três dúzias de livros escolhidos, sem estremecer até à medula dos ossos. Era o santuário dos santuários! 

O filho evitava silenciosamente, quase supersticiosamente, ter qualquer contacto rude com estes vetustos monumentos de mobiliário, como se fossem ninhos de cobras adormecidas, ou essa «coisa» perigosíssima de se tocar que é a Arca da Aliança. O seu terror infantil era silencioso e frio, mas definitivo. 

Contudo, um casal de idealistas da Nova Inglaterra não pode viver meramente da glória passada do seu mobiliário. Pelo menos, aquele casal não podia. Acostumaram-se ao maravilhoso guarda-louça de Bolonha, acostumaram-se à esplêndida estante veneziana, aos livros, às cortinas e bronzes de Sena, e aos belos sofás, aparadores e cadeiras que tinham coleccionado em Paris. Oh, andavam a coleccionar coisas desde o primeiro dia em que desembarcaram na Europa. E continuavam ainda. É o último interesse que a Europa pode oferecer a um estranho, ou mesmo a um europeu. 

Quando os Melville recebiam visitas, e estas vibravam em face dos seus interiores, então Valéria e Erasmo sentiam que não tinham vivido em vão, que ainda viviam. Mas nas longas manhãs em que Erasmo trabalhava enfastidiosamente na literatura da Renascença florentina e Valéria cuidava do arranjo da casa, nas longas horas depois do almoço e nos longos e, em regra, frigidíssimos e penosos serões do velho palácio, então dissipava-se o halo que envolvia o mobiliário, e as coisas transformavam-se em coisas, em pedaços de matéria, colocados aqui, suspensos além, ‘ad infinitum’, e que nada diziam. Então Valéria e Erasmo chegavam ao ponto de quase os odiarem. O fulgor da beleza, como todo o outro fulgor, esmorece se não é alimentado. Os idealistas amavam ainda entranhadamente as suas coisas. Mas tinham-nas adquirido. E a verdade é que as coisas que brilham vividamente enquanto as adquirimos, tornam-se completamente frias passado um ano ou dois. Claro que excepto se essas coisas são muito invejadas e os museus anseiam por adquiri-las. Mas as «coisas» dos Melville, embora muito boas, não eram tão boas como isso. 

Dest'arte, foi esmorecendo gradualmente o fulgor de todas as coisas, da Europa, da Itália - «os Italianos são caros» - até mesmo do maravilhoso apartamento moderno. É certo que valia a pena ouvir: - Ora, se eu tivesse uma casa destas, nunca, nunca me apetecia sair à rua! É tão agradável e bela! 

E contudo Valéria e Erasmo saíam à rua; saíam mesmo à rua para se libertarem do seu silêncio antigo, feito de soalhos frios e pesadas pedras, da sua morta dignidade. 

- Estamos vivendo do passado, sabes, Dick? - disse Valéria para o marido. (Chamava-lhe Dick). 

Arrastavam-se penosamente. Não queriam dar-se por vencidos. Não gostavam de admitir que estavam fartos. Fazia agora doze anos que eram pessoas «livres», vivendo uma «vida cheia e bela». E a América tinha sido durante doze anos o seu anátema, a Sodoma e Gomorra do materialismo industrial. 

Não é fácil confessar que se está «farto». E eles detestavam admitir que queriam regressar. Mas por fim, relutantemente, decidiram ir, «por causa do filho».

Tinham construído ali o seu lar, um lar como nunca se poderia ter construído na América. A sua palavra de ordem tinha sido «a beleza». Tinham alugado, durante os últimos quatro anos, o segundo andar dum velho palácio sobre o Arno, e ali tinham todas as suas «coisas». E o seu apartamento proporcionava-lhes uma profunda satisfação; as elevadas e silenciosas salas antigas, com janelas sobre o rio, com brilhantes soalhos duma madeira vermelho escura, e as magníficas mobílias que os idealistas tinham coleccionado. 

Sim, sem que eles próprios dessem por isso, as vidas dos idealistas haviam corrido horizontalmente, com uma rapidez vertiginosa, durante todo este período. Haviam-se tornado dois ferozes caçadores de «coisas» para o seu lar. Enquanto as suas almas trepavam para o sol da velha cultura europeia ou do velho pensamento hindu, as suas paixões corriam horizontalmente, agarrando-se às «coisas». Claro que não compravam as coisas pelas coisas, mas sim pela «beleza». Consideravam a sua casa como um lugar inteiramente guarnecido pela beleza, e de forma alguma por «coisas». Valéria tinha umas cortinas encantadoras nas janelas da extensa salota que dava sobre o rio: cortinas dum esquisito tecido antigo que parecia uma seda finamente bordada, cujos tons magníficos iam do vermelho, do alaranjado, do dourado e do negro, a um puro e suave fulgor. Era raro Valéria entrar na salota sem cair de joelhos mentalmente perante as cortinas. 

- Estamos vivendo do passado, sabes, Dick? - disse Valéria para o marido. (Chamava-lhe Dick). Arrastavam-se penosamente. Não queriam dar-se por vencidos. Não gostavam de admitir que estavam fartos. Fazia agora doze anos que eram pessoas «livres», vivendo uma «vida cheia e bela». E a América tinha sido durante doze anos o seu anátema, a Sodoma e Gomorra do materialismo industrial. 

Não é fácil confessar que se está «farto». E eles detestavam admitir que queriam regressar. Mas por fim, relutantemente, decidiram ir, «por causa do filho».

Passados cerca de nove meses, os idealistas partiram do Oeste californiano. Tinha sido uma grande experiência, e sentiam-se satisfeitos com ela. Mas, afinal de contas, o Oeste não era o lugar que lhes convinha, e eles sabiam-no. Não, as pessoas que precisavam de almas novas, que as obtivessem. Valéria e Erasmo Melville preferiam desenvolver um pouco mais a alma velha. De qualquer forma, não tinham sentido qualquer influxo de alma nova na costa californiana. Pelo contrário. 

Assim, com um ligeiro desfalque no seu capital material, os dois voltaram a Massachusetts, onde foram visitar os pais de Valéria, levando consigo o filho. Os avós acolheram com entusiasmo a criança - pobre ser sem pátria - foram um tanto frios para com Valéria, mas bastante frios para com Erasmo. A mãe de Valéria disse-lhe um dia redondamente que Erasmo tinha de arranjar um emprego, para que ela, Valéria, pudesse viver uma vida decente. Valéria falou-lhe com altivez do seu belo apartamento sobre o Arno, das «esplêndidas» coisas que tinha num armazém de Nova York e da «vida maravilhosa e satisfeita» que ela e Erasmo tinham vivido. A mãe de Valéria disse-lhe que não considerava tão maravilhosa como isso a vida que a filha levava presentemente: sem lar, com um marido ocioso aos quarenta anos, um filho para educar e um capital em decrescimento. Parecia-lhe mesmo o contrário do maravilhoso. Erasmo devia ocupar um posto qualquer numa universidade. 

- Que posto? Que universidade? - interrompeu Valéria. 

- Isso podia arranjar-se, atendendo às relações de teu pai e às habilitações de Erasmo - replicou a mãe de Valéria. - E então vocês poderiam tirar do armazém as suas valiosas coisas, e ter uma casa verdadeiramente bela, que toda a gente aqui na América se orgulharia de visitar. Na situação presente, a mobília está-lhes devorando todo o rendimento, e vocês vivem como ratos num buraco, sem ter para onde ir. 

Isto era a pura da verdade. Valéria começava a ansiar por ter uma casa, com as suas «coisas». Claro que poderia ter vendido a mobília por uma soma substancial. Mas ninguém poderia convencê-la a isso. Dissipassem-se embora todas as outras coisas - religiões, culturas, continentes e esperanças - Valéria nunca se desfaria das «coisas» que ela e Erasmo tinham coleccionado com tanta paixão. Estava amarrada a elas. 

Mas ela e Erasmo não queriam também desfazer-se daquela liberdade, daquela vida cheia e bela em que tanto tinham acreditado. Erasmo amaldiçoava a América. Não queria ganhar a vida. Anelava pela Europa. 

Deixando o filho a cargo dos pais de Valéria, os dois idealistas partiram de novo para a Europa. Em Nova York gastaram dois dólares para verem as suas «coisas» durante uma hora breve e amarga. Embarcaram na «classe de estudantes», quer dizer, terceira classe. O seu rendimento não chegava agora a dois mil dólares, em vez de três. E partiram direitos a Paris, um Paris barato. 

Desta vez, a Europa revelou-se-lhes um perfeito fracasso. 

-Voltamos como cães ao nosso vómito - disse Erasmo; - mas o vómito tornou-se entretanto nauseabundo. 

Verificou que não podia suportar a Europa, que esta lhe irritava todos os nervos do corpo. Detestava também a América. Mas a América, ao menos, era um espectáculo melhor do que este miserável e decadente continente, que nem sequer era já barato. 

Com o coração preso às suas coisas (ansiava, na realidade, por tirá-las daquele armazém, onde permaneciam fazia agora três anos, devorando-lhes dois mil dólares) Valéria escreveu à mãe, dizendo-lhe que supunha que Erasmo regressaria se pudesse conseguir um trabalho adequado na América. Com um sentimento de fracasso que roçava pela cólera e pela loucura, Erasmo deu a volta à Itália duma maneira pobretana, com as mangas do casaco no fio, odiando intensamente todas as coisas. E quando lhe foi obtido um lugar na Universidade de Cleveland, para ensinar literatura francesa, italiana e espanhola, os seus olhos tornaram-se mais esbugalhados, e o seu rosto comprido e estranho tornou-se mais afilado e parecido com o focinho dum rato, tão desvairada foi a sua fúria. Tinha quarenta anos e o emprego estava-lhe à porta. 

- Acho que seria melhor aceitares, filho. Já não queres saber da Europa, pois, como dizes, já deu o que tinha a dar. Oferecem-nos uma casa no recinto da universidade, e a mamãe diz que há nela espaço para todas as nossas coisas. Acho que seria melhor telegrafarmos que aceitamos. 

Erasmo olhou-a ferozmente, como um rato acossado. Não seria surpresa verem-se-lhe surgir e encrespar-se bigodes de rato aos cantos do nariz aguçado. 

- Mando um telegrama? - perguntou ela. 

- Manda! - respondeu bruscamente. 

Ela saiu e enviou-o. 

Erasmo mudou, tornou-se um homem mais calmo, muito menos irritável. Tinham-lhe tirado dos ombros um peso enorme. Estava dentro da ratoeira. 

Mas quando viu as fornalhas de Cleveland, vastas e semelhantes à maior das florestas negras, com cascatas de metal em borbotões vermelhos e rubro brancos, com homens pequeninos como diabretes e ruídos terrificantes, gigantescos, disse para Valéria: 

- Podes dizer o que quiseres, Valéria; mas esta é a coisa mais colossal que o mundo moderno pode apresentar. 

E quando se encontravam na sua casinha moderna do recinto da Universidade de Cleveland, e todos esses malfadados despojos da Europa - o guarda-louças de Bolonha, as estantes de Veneza, a cadeira do bispo de Ravena, os aparadores à Luís XV, as cortinas de «Chartres», as lâmpadas de bronze de Sena - se encontravam armados, parecendo todos novinhos em folha e fazendo uma vista impressionante; quando os idealistas receberam em sua casa uma multidão de pessoas boquiabertas e Erasmo se apresentou com as suas melhores maneiras europeias e, contudo, muito cordial e americano; quando Valéria ostentou o seu aspecto mais senhoril, mas, apesar disso «preferimos a América»; então Erasmo disse olhando-a com os seus estranhos e vivos olhinhos de rato: 

- É certo que a Europa é a mayonnaise, mas a América fornece a boa da velha lagosta. Não achas? 

- Sem dúvida! - disse ela com satisfação. 

E Erasmo olhou-a com um ar inquiridor. Estava na ratoeira, mas esta era segura. E Valéria, com toda a evidência, tinha encontrado por fim o seu ser real. Obtivera as suas coisas. Contudo, no nariz dele havia uma prega estranha, maldosa e escolástica, de puro cepticismo. Mas gostava de lagosta.

D. H. Lawrence